Quinta, 9 de setembro de 2010

Educação por Princípios

O atual quadro sócio, político e econômico do Brasil é o triste retrato de um lento processo, construído ao longo dos anos. As deficiências e desigualdades sociais, no entanto, já se tornaram referência do País e até mesmo formas de identifica­ção de nossa cultura. A população, apesar de famosa pela alegria e hospitalidade, acostumou-se a viver em meio a essas diferenças e, em raríssi­mas vezes, toma atitudes que possam reverter a situação.
 
Esse típico comportamento é fruto da instrução que o cidadão recebe desde o seu nascimento. Mesmo de maneira indireta, às vezes até sem intenção, o brasileiro adquiriu, na escola, em casa ou na sociedade, uma mentalidade de inferioridade. Diferentemente do que ocorreu nos países com raízes protestantes, no Brasil, o caráter submisso foi introduzido e assimilado pelos povos coloniza­dos. E essa raiz ainda perdura em nosso meio.
 
Com o objetivo de transformar essa mentalidade, especialistas e líderes evangélicos estão buscando meios de difundir uma nova tendência educacio­nal no País. A finalidade é, aos poucos, introduzir um método de ensino que influencie na formação do caráter do cidadão e produza resultados em um futuro próximo.
 
A Educação por Princípios chegou ao Brasil para impulsionar esse lento e longo processo de transformação. Raras instituições educacionais já estão se adaptando ao novo método, enquanto especialistas e educadores favoráveis ao sistema difundem as idéias no anseio de que este possa ser o primeiro passo rumo a um futuro promissor.
 
O Tema
 
Educação por Princípios é um método de ensino com raízes tipica­mente norte-americanas. No Brasil, os primeiros contatos com o sistema começaram a se efetivar a partir do final da década de 80. Nos Estados Unidos, porém, referências bibliográfi­cas da década de 70 já mencionavam a Educação por Princípios como um método histórico cristão americano de raciocínio com base na Palavra de Deus. As aplicações dessa teoria no ensino também já eram mencionadas.
 
Basicamente, a Educação por Princípios utiliza sete fundamentos que aplicados e analisados em todo o processo educacional. São eles:
 
Caráter - É a soma total de todas as influências positivas ou negativas, aprendidas na vida de uma pessoa. No caso do princípio bíblico, Deus deseja que Sua imagem seja formada no homem, expressando Sua glória.
 
Mordomia - Deus, como proprietário de todas as coisas, deu ao homem a responsabilidade de administrar tanto seus recursos internos como as coisas materiais externas.
 
Autogoverno - A capacidade de escolher e de restringir-se internamente, resistindo ao pecado e submetendo-se ao Deus de amor, é a marca da liberdade. À medida que aprendemos a governar nas áreas mais próximas de nossas vidas, poderemos estender esse governo até esferas de maior influência. No desequilíbrio teremos ou a anarquia (falta de governo externo) ou a tirania.
 
Semear e Colher - Deus ensina que o homem colhe aquilo que semeia, que há causa e efeito para tudo que se passa ao nosso redor e conosco.
 
Pacto de união - Deus estabeleceu um equilíbrio entre a unidade interna e a união externa, assim, somente que não há acordo em princípio pode haver unidade em ações.
 
Individualidade - Deus é uno e, no entanto, diverso em sua criatividade e expressão e criou o homem à Sua imagem para relacionar-se com ele de maneira única, mas também coletivamente, em harmonia.
 
Soberania - Deus é soberano, governador absoluto sobre tudo, escolheu manifestar Sua natureza através de estruturas ordenadas de acordo com Seus caminhos.
 
Paralelamente a estes princípios, são aplicados o que os especialistas chamam de quatro passos fundamentais no processo de ensino e aprendizagem que são: investigar, raciocinar, relacionar e registrar.
 
Segundo o presidente da AECEP, Pr. Roberto Rinaldi Jr., a Educação por Princípios ajuda o indivíduo a raciocinar de uma maneira mais governamental e menos passiva, ou seja, a pessoa aprende a analisar as situações e a modificá-las quando necessário. "Os americanos receberam educação para governar e nós para sermos governa­dos. Eles têm coragem de agir e de interferir quando algo não está certo, nós já fomos educados para simples­mente aceitar a situação", explica o especialista.
 
Para Rinaldi Jr., o propósito principal da Educação por Princípios é justamente ensinar o indivíduo a pensar de forma diferente. "A criança precisa analisar as adversidades, descobrir o que acontece e por que acontece e, principalmente, o que ela pode fazer para enfrentar tal situação e qual o propósito de Deus dentro desse contexto. Pensar governamentalmente é fazer e não esperar que alguém faça", esclarece.
 
Em Goiânia, o Colégio Kerygma é a única instituição de ensino a aplicar o método por princípios. Aplicando os sete princípios e os quatro passos, a escola prepara o aluno para o mundo e para uma vida cristã. "Hoje, muitos pais transferem para a escola a responsabili­dade de ensinar, formar caráter e até mesmo de evangelizar a criança. Por isso, trabalhamos também com os pais, para que eles assumam a sua parcela na formação do aluno", enfatiza a coordenação.
 
Os pais estão mais preocupados com questões profissionais e financeiras e acabam passando toda a responsabili­dade para a escola. É preciso ressaltar que dez minutos de qualidade ao lado do filho é muito mais importante que vinte e quatro horas sem qualidade. Os pais precisam conhecer o filho, saber o que sente, pelo que passa, o que precisa. Muitos pais procuram nossa escola por saberem da nossa tradição cristã e por desejarem que nós assumamos o papel de formadores de caráter. Uma educação de qualidade é fundamental na formação do caráter, mas o papel dos responsáveis é decisivo, esclarece a direção.
 
Segundo Rinaldi Jr., os profissionais das escolas cristãs de Educação por Princípios devem ter a consciência da importância que a escola assume na educação, sem deixar de lado a família e a Igreja. "Não é simplesmente exercer uma função profissional. É preciso entender que ele está formando uma vida e que esta vida vai influenciar, de alguma forma, na história de uma família, de uma comunidade, de uma cidade. Conhecer, estudar e seguir a Palavra de Deus também é fundamen­tal", conclui.
 
A História
 
Verna M. Hall e Rosalie Slater pesquisaram a história cristã americana desde 1940, buscando na fonte através de sermões, documentos públicos da época dos fundadores e as cartas das mulheres colonizadoras. Descobriram a providência de Deus na história americana e os cento e cinqüenta anos de educação em princípios bíblicos de governo.
 
A partir desse trabalho, trouxeram à luz o método bíblico histórico de raciocínio e anotações, que foi fundamental na educação colonial na época da Constituição. Foi fundado então o ministério da FACE - Fundação para a Educação Cristã Americana. Vários outros ministérios surgiram a partir deste, explorando os conceitos e aperfeiçoando a prática do que foi chamado de Educação por Princípios (Principie Approach Education).
 
A definição de Educação por Princípios, como a encontrada no livro Teaching and Learning, de Rosalie J. Slater, é: "Método cristão histórico americano de raciocínio bíblico, que faz das verdades da Palavra de Deus a base de cada assunto no currículo escolar". A partir daí, foi estruturado o sistema educacional de Educação por Princípios, implicando em:
 
Filosofia: Aponta para quem ou o quê está governando ou direcionando a situação, ensinando a pensar do interno para o externo. Opõe-se a visão humanista, relativista, que distorce o sentido do conhecimento ao funda­mentá-lo no homem, sem compromis­so moral.
 
Currículo: Comunicado como uma experiência viva do professor para o aluno, através de seu exemplo e domínio da matéria. Opõe-se a apresentação fragmentada e informati­va das matérias, sem compromisso com o desenvolvimento integral do aluno para cumprir plenamente sua vocação.
 
Metodologia: Desenvolve o raciocínio criativo, constrói o conheci­mento através da pesquisa e funda­menta o aprendizado na aplicação de princípios bíblicos. Opõe-se a métodos pré-fabricados e consumistas, que acarretam dependência do meio psico­-social.
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